Pular para o conteúdo

O SINO

Sou um homem de fé. Privilegiado por viver neste país que tanto amo, chamado Inglaterra, e nesse século abençoado, sob o reino de nossa amada Rainha Vitória, não hesito em dizer que me considero um escolhido pela luz divina.
Minha vida é muito simples e estou atento às mudanças de clima.
Muitos detestam e não sabem compreender que a chuva que tanto visita minha amada região traz benefícios ao campo e enche de verdor os campos, onde crescem e brotam sementes que embelezam ainda mais essa terra por mim adorada.
A Inglaterra vitoriana é rica em artes, poder, beleza e arquitetura.
Não precisamos de nada que venha de outros povos, já que aqui temos todos os recursos necessários para viver com abundância e harmonia, seja pelo mar ou por terra. O conservadorismo que tantas nações criticam é considerado uma benção a cidadãos como eu que possui uma família tradicional e vive sob os desígnios da moral e dos bons costumes.
Não compreendo ainda muito bem por que me encontro nesta situação atípica e fora de propósito. Neste momento, teria que estar em minha residência, tomando o meu chá da tarde na companhia de minha esposa, conversando sobre amenidades e exaltando o quanto somos felizes de ser e ter o que somos.
Apesar de encontrar-me imóvel, sem conseguir mexer meus membros superiores e inferiores, minha mente trabalha continuamente, relembrando qualquer detalhe que possa me ajudar a sair dessa situação em que me encontro desde que despertei e me deparei com um grande pedaço de madeira diante do meu rosto, impedindo-me de respirar normalmente. Não consigo enxergar nada além dessa madeira e estou num local extremamente apertado. Mesmo nessa situação, minha mente busca alguma pista para tirar-me de onde me encontro e voltar à minha vida cotidiana.
Meus dedos encontraram um pedaço de corda. Estou puxando essa corda, sem nenhum resultado. Já ouvi e sei que existe uma situação em que um sino é amarrado a um pedaço de corda que, por sua vez, está amarrado a uma pessoa. O sino é acionado de dentro de um caixão em caso de que alguém seja enterrado vivo e acorde no meio do processo. Ao puxar a corda, o sino soa e os funcionários do cemitério desenterram a pessoa, livrando-a da morte por sufocamento.
Não creio que esse seja meu caso…
Mas, analisando friamente a situação em que me encontro nesse momento, há uma corda, uma madeira diante de mim que me impede a respiração, meu corpo preso a um recipiente que não permite que eu consiga movimentar meus membros…
Puxo a corda, sem resultado. O sino não produz nenhum som lá fora.
O ar está esvaindo-se e meu corpo encontra-se em estado letárgico, sem conseguir movimentar um só dedo. Não consigo respirar. Minha mente está bloqueada. Não voltarei a tempo para o chá da tarde.

Marcações:

Deixe uma resposta

error: Content is protected !!

Descubra mais sobre Escolaonline

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading